blogsteiras

6 de julho de 2007


O que é um bandido?

Então.. A história começa em um barraco caindo aos pedaços ou um casebre mulambo no meio do nada, não importa..

Fulano tá lá ralando, um bico aqui, outro ali, uma enxada no roçado ou um balde de cimento nas costas... Depois de “carregar pedras” o dia inteiro, o caminho de volta pra casa tem uma escala no botequim, onde os amigos se reúnem para tomar a cachaça de todo dia. Não uma ou duas, mas quantas os caraminguás permitirem...

A conversa é a de sempre: futebol, política, mulher, gozações recíprocas, etc.. Não que Fulano entenda alguma coisa de qualquer dos assuntos, mas com a cara típica de quem já entornou um bocado, discute como se especialista fosse...

O tempo passa, a cachaça sobe e é hora de ir pra casa. Chega, sem o menor saco pra aturar filho e menos ainda pra ouvir a patroa. É tempo de comer um grude e se jogar na cama, aproveitando o porre pra dar uma na dita patroa e, de repente, colocar mais uma cria no mundo.

Entra na história o Fulano Junior... Mal vê o pai, só vê a mãe ralando, correndo atrás de deixar o barraco minimamente habitável e, quase igual ao pai, sem o menor saco pra pensar em filho, se vai a escola, se ta com fome.. Se preocupa em cozinhar o que tiver e enfiar goela abaixo esperando que seja o suficiente para que nenhum deles morra de fome..

Junior então, desde muito cedo, cuida da própria vida. Trata de se mandar de casa antes que sobre serviço ou tabefes. Vai ao encontro de tantos outros juniores que chutam algo parecido com bola pelos espaços disponíveis, empinam pipa se conseguiram material pra fazer uma ou simplesmente ficam à toa..

E nesse “À toa” que a coisa começa a pegar. Eles tem olhos, tem ouvidos e até um mínimo de dicernimento para perceber que não longe deles, tem moleques andando de bicicleta, brincando com uns brinquedos incrementados, vestindo algo mais que os trapos que eles vestem e, pior, com cara de felizes e despreocupados. Talvez isso incomode mais que qualquer outra coisa.

No raciocínio que permite os neurônios prejudicados pela alimentação parca e inadequada, pelos exemplos de desunião familiar, de discussões resolvidas a catiripapos nele, irmãos e mãe, vem a pergunta: por que ele tem e eu não? Por que não sou igual a eles?

A resposta é tão óbvia para ele quanto à conclusão: se tivesse grana não tava aqui nesta merda!

Por “sorte”, aquele canto onde se reúnem os pivetes todos sempre é visitado por uns caras que estão “na boa”... Roupas “da hora”, uns correntões de ouro que dava até pra rebocar um carro de tão parrudos, óculos “raiban” cujo reflexo até ofusca os olhos cheios de inveja e admiração.

São esses caras que podem dar um outro rumo da vida dele. Mas quando circulam por lá, preferem conversar com os mais velhos. E Fulano Junior já perceber que depois de uma conversa com “os caras” aqueles pivetes somem. Acaba o jogos de bola, as brigas de pipas onde o cerol é a arma. Nas raras vezes que aparecem é pra se exibir, mostrar o tênis da moda, um “raiban” diferente, enfim, umas cópias empobrecidas dos “caras”, mas mesmo assim, muito melhor do que os Fulanos Juniores que ainda não tiveram uma conversa com “eles”.

Mas chega o dia em que o escolhido é o Junior. A oferta é clara e simples: “tu vai vender uns bagulhos pros bacanas e levar uns troco legal, pra mudar tua vida”. E quem vai resistir a isso?

Ter grana pra comprar uma bola, incrementar o visual pra se enturmar, até pode rolar uns cordões de outro pra botar banca.. “To nessa, claro!”...

O tempo passa e Junior ta lá ralando no asfalto, entregando os bagulhos pros caras que chegam nos carros bacanas, pegando a grana, que não é pouca e levando pros “caras” que ficam enrustidos nos muquifos. Junior percebe que a parte dele no lance não é tanto quanto pensava. Dá pro gasto mas não pros sonhos.

Mas as conversas com os “colegas” da profissão dão boas dicas.. Ensina pra Junior que o trampo é só parte da coisa, que tem outros “ganhos” junto com a turma, é só pegar o jeito e entrar no esquema.

Aí sim a situação começa a mudar. Circulando na área dos bacanas, vê quantos trouxas dão bandeira andando desligados, sem ver o que acontece em volta. Junior e seu grupinho já estão espertos no lance. Um chega perto, dá um tranco e enquanto o trouxa ta no susto, na surpresa, os outros encostam e levam o que podem. Uma carteira, uma bolsa, um cordão de ouro, um relógio... Fácil.. Sem contar que os “caras” pegam tudo e dão uma grana pelo material.

Agora sim, Junior ta faturando melhor. Mas ainda não tem o par de tênis da hora, não tem grana suficiente pra uns fliperamas...Falta alguma coisa. Mas os amigos estão por aí pra dar apoio, ensinar o ofício, dar os macetes..

E Junior divide seu tempo no expediente dos bagulhos, nas andanças pra faturar uns trouxas nas calçadas e agora já ta no grupo planejando ganhos maiores. Como bom aprendiz já mostrou que tem o jeito pra encarar as dificuldades, os riscos e fazer seu ganho. Vem a promoção!

Ganha uma “ferramenta”, municiada, pronta pra encarar os bacanas pra levar bem mais que uns trocados ou um cordãozinho de ouro. E quem vai encarar? Quem vai bancar o macho com um berro apontado no meio da cara?

Beleza! É só chegar no distraído, enfiar o cano na cara, dar uns berros e o trouxa se borra, larga tudo. Carteira, cartões, cheques, carro.. Junior leva o que quiser, na maior tranqüilidade... A adrenalina do momento, aquele frio no estomago na hora de encarar o ganho é um bônus. Há muito tempo Junior já descobrir que uma cheirada antes do trampo deixa ele invencível, pronto pra encarar qualquer trouxa e, se ele pensar em reagir, ta pronto pra meter uns tecos no cara e levar o ganho.

Tirando a grana que deixa pros “caras”, tanto comissão dos ganhos quanto das carreirinhas, ainda sobra pra curtir, aproveitar a vida. Pai? Mãe? Irmãos? Sabe-se lá....

Junior ta noutra, não tem tempo pra pensar nos derrotados, nos ferrados..

É isso... Quem segue a vida do Fulano Junior já sacou! Isso é um bandido....

É?

Não é não... Fulano Junior é o piso, o peão, o nada que movimenta a arrecadação, um a mais....

Então bandidos são “os caras”?

Vamos ver... Vamos deixar Fulano Junior com seus “ganhos”, sua vida (que ele não sabe) mas será mais curta do que ele pode imaginar e acompanhar um pouco pra saber quem são “os caras”....



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