blogsteiras

2 de setembro de 2004


Estava aqui olhando pra meu dedão do pé direito e pensando.. É..Costumo ter muitas conversas com ele, discutimos sobre todos os assuntos. As vezes o convenço das minhas idéias, as vezes ele me convence dos sentimentos dele.. Já o dedão do pé esquerdo é meio taciturno, de pouco falar e menos ainda de emitir suas opiniões. São muito próximos e, no entanto, diferem completamente de genio.
Estávamos (eu e o dedão do pé direito) discutindo a forma de entendimento das palavras. Como uma mesma palavra pode ser entendida de tantas formas diferentes?
Ele, (o dedão do pé direito) diz que está feliz por trilhar os caminhos que percorro enquanto ele,(o dedão do pé esquerdo) só lamenta por ser obrigado a seguir o mesmo caminho.
Ambos vêem as mesmas coisas, ouvem as mesmas coisas, sofrem com o calor de uma areia escaldante na praia, se extasiam com o mergulho nas águas geladas trazidas pelas ondas.
Se um reclama do calor o outro replica que nem está tão quente assim. Se outro fica roxo e indignado com o mergulho na água fria, um considera um exagero, uma verdadeira provocação, só porque ele gostou do contraste.
As vezes, estico as pernas e me ponho a ler, deixando que ambos fiquem lado a lado para avaliar suas diferenças. Disfarçadamente fico atento à discussão entre eles.
Ambos se gostam, se apoiam, entendem que não poderiam viver sem a presença do outro. Mas se pegam nos detalhes, competem constantemente procurando impor suas opiniões em detrimento da opinão do outro.
Mas, após muita conversa, vejo que pouco a pouco, cada um cede um pouco. A amizade que os liga permite que, independente da opinião que tenham, das certezas de seus atos e sentimentos, podem contornar as diferenças, aceitarem-se mutuamente por entenderem que a união deles é maior que a pretensa e ilusória "vitória" de seus pontos de vista particulares.
Sempre concluem, ao final, que cada um é como é. E que foi assim que aprenderam a gostar um do outro. Concluem que, ao tentar impor suas afirmativas, estão na verdade querendo que o outro seja seu espelho, seu reflexo idêntico. E que isso, ao invés de uni-los, acabará por afastá-los de vez.
Assim, ao longo do tempo, ambos descobriram que podem colocar seus pontos de vista, procurar explorar e justificar, mas não, necessariamente, impor-se sobre o outro. Que são do mesmo tamanho, tem a mesma estatura, se completam. E se isso deixar de acontecer o desequilibrio prejudicará a ambos.
Assim, vendo eles se entenderem, fico feliz e entendo porque sou feliz: há um equilibrio, bom-senso, vontade de entendimento, um constante esforço no sentido de terem suas opiniões próprias sem obrigar que outros concordem com elas.
E assim, aprendendo com meus dedões, procuro agir como eles, aceitando as pessoas como são. gostando delas do jeito são. Aceitando o fato que ao ceder aqui e ali, não me rebaixo, não me reprimo, não me entristeço, não me sinto derrotado ou vitorioso. Pelo contrário, me sinto mais feliz por ter sabido contornar as divergências sem magoar a ninguem. E nem a mim.


Padu |

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